Quando eu era menino, ia pra escola de perua, ostentando minha lancheira laranja das Tartarugas Ninjas, onde minha mãe depositava com todo amor e carinho, suco Mupy e bolachinhas Fofys. Em uma vasilha de plástico, um pedaço de bolo para entregar ao meu primo na hora do recreio. Meus amigos e eu, esperávamos ansiosamente a hora do lanchinho, pra podermos comer a merenda e bater bafo com as figurinhas do Brasileirão. Eu tinha o Cafú, meu amigo tinha o Éder Aleixo, e trocávamos ou brincávamos de bater figurinhas.
Jogava bola com latinha amassada de Coca-Cola, suava o uniforme, onde uma marca de Toddynho já havia sido feita por algum coleguinha de sala. Brigas? Ah, o “te pego na saída” era bem conhecido entre a minha turma. Quem atacava papel ia sentar na primeira fila, ia pra fora, ou pra sala da Tia Cida.... Tia Cida nãaaaaao, falávamos com os olhos!
A maior alegria era perto das 17:30h. Ouvíamos no microfone: “Atenção alunos de primeira a quarta-série para a saída....”, e corríamos com nossas mochilas de rodinha. Lá fora, nossos pais nos esperavam, e os “mafiosos” da sala também!
Bons tempos! Como dizia meu avô, tempos que não voltam mais! Ou como diz a minha mãe: “eu nasci na melhor época!”.... Gozado, todos dizemos a mesma coisa.... Mas, e as crianças de hoje? Dirão isso também?
Pensamos que não, mas quem garante que estamos certos? Nossos pais pensavam a mesma coisa quando éramos jovens. Mas por outro lado, duvido muito. A infância de hoje é robótica, é eletrônica, é virtual. Não tem a inocência do conhecimento, e não tem a malícia da molecagem. A criança da nova era é inteligente demais para brincar, e burra demais para ser criança.
Não existe mais a brincadeira de rua, onde chinelos eram traves, bandeiras. Onde pedras pintavam a linha de fundo nas ruas, e onde bolas voltavam furadas de onde acreditávamos que existia uma bruxa velha. Não existe mais pega-pega, esconde-esconde, rouba-bandeira. Hoje, o pega-pega é jogo de guerra online, o esconde-esconde é o status de invisível do MSN, e o rouba-bandeira não existe, porque nenhuma criança consegue “explorar” o outro lado pelo computador.
Meninas não brincam de bonecas. As bonecas viraram crianças, e as meninas, mulheres. Não existe amizade de rua, apenas de internet. Cartas já não se recebem mais. Agora são e-mails, mensagens, SMS. Beijos são abreviados e virtuais.
Os pés sujos do futebol de rua, os tampões estourados e os vidros cravados na sola dos pés. Que criança tem isso hoje? Elas não sabem o que é pisar na rua, sentir a alegria de ser moleque.
Buscar madeiras nas construções, pular muros de terrenos baldios, apenas para fazer a fogueira de São João. Jogar vídeo-game na casa dos amigos, se o cartucho funcionar, mesmo depois de assoprá-lo.
Uma criança a frente de outra criança, hoje, não sabe ser criança. Não tem assunto, não tem memória, não tem lembrança. Tem vergonha, não tem postura. A criança conhecia o mundo com seus próprios pés. A criança de hoje tem o mundo aos seus pés, sem ao menos pisar nele.
Eu nasci na melhor época. Bons tempos que não voltam mais!